Por Manuela Abreu (*)

 Desde sempre que medicina e tecnologia andam de mãos dadas. Se, por um lado, os avanços tecnológicos têm permitido inovações outrora impensáveis no campo da medicina, por outro, são muitas vezes as necessidades verificadas na medicina que culminam em breakthroughs tecnológicos. Neste último âmbito, é notório como recentemente a pandemia de COVID-19 obrigou o mundo a repensar sobre como os serviços de saúde são oferecidos. Sem mãos a medir, os profissionais de saúde ficaram imersos na linha da frente do combate à doença, enquanto diminuíram o acesso e a procura de cuidados médicos não afetos a COVID-19. Desde o início da pandemia que os pacientes têm adiado ou renunciado a uma ampla variedade de serviços, incluindo tratamento de emergência de condições agudas, check-ups de rotina e exames recomendados de prevenção do cancro. E foi precisamente aqui que a tecnologia entrou em ação: ajudando a atenuar os efeitos de longo prazo relacionados com a falta de intervenção precoce, de gestão de doenças crónicas e de condições não diagnosticadas.

Em apenas dois anos, testemunhamos uma evolução sem precedentes da telemedicina e do acompanhamento de pacientes à distância. Assistimos a um crescimento exponencial das Health Techs - startups com o objetivo de solucionar problemas do setor da saúde, recorrendo à tecnologia, que têm atuado em diferentes frentes, desde a modernização e gestão de clínicas e hospitais aos avanços relacionados com exames e autocuidado, entre outros exemplos. Ainda assim, apesar de as Health Techs se dedicarem a muitas e distintas áreas de atuação, há três áreas da medicina que estas têm dominado e nas quais se mostram mais eficazes no complemento ao trabalho dos profissionais de saúde. São elas a medicina preventiva, a medicina personalizada e a medicina proativa, as quais passo a escrutinar com casos concretos:

Medicina Preventiva

A atuação das Health Techs na medicina preventiva prende-se com a necessidade de evitar ou minimizar os efeitos de doenças diversas, através de tecnologia que potencia o diagnóstico de predisposição de um paciente a certos problemas de saúde. Desta forma, é possível perceber se um paciente tem uma maior disposição a uma certa doença e manter uma maior atenção a sintomas ou mesmo atuar na prevenção através de tratamentos específicos. Existem várias tecnologias a trabalhar esta parte da medicina, como é o caso da utilização de inteligência artificial em estudos genéticos, a nanotecnologia ou a pesquisa de novos protocolos saudáveis, que demonstram hábitos que podem ser interiorizados pela população de forma a diminuir a prevalência de certos problemas de saúde.

Um exemplo de sucesso na área da medicina preventiva é a startup Udotest, que permite a qualquer pessoa obter um kit personalizado com material de análise laboratorial, de forma a conseguir testar uma série de condições de saúde em casa e evitar o esforço e gasto de tempo em ir a um laboratório. O kit de triagem é depois enviado para a startup, que analisa os resultados num dos laboratórios da sua rede e os envia a um médico certificado, que fica responsável por comunicar e explicar os resultados ao paciente.

Medicina Personalizada

A medicina personalizada foca, por seu lado, no uso de dados pessoais para personalizar tratamentos e acompanhamento ao paciente, de forma a adequar o mais possível as intervenções a nível de saúde e a tomar decisões em relação a terapias e tratamentos de forma mais específica e individualizada.

A startup Encelin, dos Estados Unidos, é um exemplo de inovação nesta área. Através do uso da nanotecnologia, a startup cria sensores que são implementados no corpo de um paciente e o monitorizam continuamente, permitindo não só um alerta precoce para possíveis problemas de saúde, mas também o fornecimento de uma solução terapêutica de autorregulação a longo prazo.

Medicina Proativa

Já a medicina proativa facilita a relação entre um profissional de saúde e o paciente e tem sido muito exponenciada pela tecnologia durante a pandemia de COVID-19. Esta área remete para a deteção e tratamento de doenças numa fase inicial, quando é geralmente mais fácil obter resultados positivos, e tem permitido estreitar relações entre médicos e pacientes. São muitos os exemplos que podem ser dados, de soluções de telemedicina, plataformas de agendamento à distância, relógios digitais com leitura de dados biométricos e de atividade, entre outros.

Uma das aplicações concretas da medicina proativa passa pelo acompanhamento nutricional à distância, enquanto serviço que permite a qualquer nutricionista acompanhar os seus pacientes (através de consultas online e aplicações móveis, por exemplo), mantendo-os conectados em todos os momentos. Desta forma, é possível perceber em tempo real as dificuldades do paciente, antecipar possíveis períodos de desmotivação e trabalhar em melhoria constante do plano de ação.

Analisadas estas três áreas, percebe-se que toda a evolução tecnológica que as Health Techs trazem não substitui o trabalho dos profissionais de saúde. Pelo contrário, o trabalho das Health Techs é desenvolvido tendo sempre como foco facilitar o trabalho dos profissionais de saúde nas suas mais variadas áreas. E esta dinâmica é a maior homenagem que lhes pode ser feita, uma vez que reconhece, acima de tudo, a importância que todos estes “heróis” têm nas nossas vidas.

(*) diretora do departamento de nutrição na Nutrium

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