Quando falamos de pele oncológica não falamos de cancro de pele, mas sim da pele do doente com cancro, seja ele qual for. Devido aos tratamentos, a pele fica muito mais sensível e tende, gradualmente, a ficar mais fina. O tipo de pele também pode alterar-se durante este período. Este é um momento delicado, mas importante para cuidar da pele e adotar uma rotina diária simples mas eficaz, onde as palavras de ordem são segurança, reparação e conforto.

A pele é a interface dinâmica entre o ambiente externo, em constante alteração, e o meio interno do corpo. Cobre-nos da cabeça aos pés, é viva, vital e variável. Há momentos na nossa vida em que o cuidado com a pele ganha uma dimensão especial. É isso que acontece no doente oncológico.

A pele oncológica, no doente com doença ativa e em tratamento, é:

  • Sensível
  • Fragilizada
  • Reativa
  • Fotossensível

Independentemente das particularidades de cada tipo de tratamento, estas características devem ser consideradas, e os cuidados cosméticos deverão ser sempre adaptados.

O doente oncológico é alertado para uma série de efeitos secundários dos seus tratamentos, mas raramente para os que acometem a pele. Mais de 80% dos doentes com cancro desenvolvem efeitos secundários cutâneos. O facto de haver uma evolução constante nas terapêuticas leva a consequentes novas reações. A boa notícia é que estas consequências podem ser prevenidas ou aliviadas com um ritual cosmético adaptado, que contemple limpeza, hidratação e proteção da pele.

Está provado atualmente que há consequências fisiológicas benéficas decorrentes do cuidado com a pele, tais como a diminuição da tensão arterial elevada e da dor muscular, a redução das náuseas e do stress, uma melhor aceitação dos tratamentos e, acima de tudo, a capacidade de fazer as pessoas sorrirem novamente.

Para que tudo corra bem, há alguns ingredientes a evitar nos cuidados cosméticos, tais como:

  • Óleos essenciais
  • Fragrâncias
  • Sabão
  • Álcool
  • Esfoliantes
  • Peelings

Porquê? Os óleos essenciais e as fragrâncias têm um forte potencial alergizante. Os produtos com sabão têm um pH alcalino, desajustado para a pele sensível e fragilizada, podendo dessecá-la e sensibilizá-la ainda mais. O álcool pode secar a pele em excesso. Os esfoliantes e os peelings poderão ser demasiado agressivos e fragilizar ainda mais a pele. Devem ser sempre privilegiados os cosméticos desenvolvidos a pensar nas peles sensíveis que, à partida, oferecem mais segurança.

Para além dos cosméticos em si, há algumas boas práticas a adotar que permitem maximizar a ação dos produtos, direta ou indiretamente.

  • Tomar duches rápidos com água tépida. Evitar a água demasiado quente, que pode irritar a pele ou originar prurido. A água quente afeta ainda o tamanho das partículas detergentes, facilitando a sua penetração na pele, o que não é desejável.
  • Usar óleos ou cremes de limpeza para o banho com pH neutro (5.5), os chamados Syndet — Synthetic Detergents — que não contêm sabão.
  • Secar a pele suavemente com uma toalha macia, antes de aplicar um hidratante. Hidratar a pele depois do banho, partindo da cabeça e seguindo até aos pés.
  • Hidratar também atrás das orelhas, as pálpebras, o pescoço, a planta dos pés e a cabeça (caso o cabelo tenha caído).
  • Em resposta à questão – devo lavar a minha cabeça com champô ou gel de banho? – a resposta é: com champô suave, porque o champô é o cosmético desenvolvido para esta zona do corpo e, mesmo sem cabelo, fará mais sentido.
  • Aplicar ainda um bálsamo reparador nos lábios.
  • Hidratar os pés à noite, antes de deitar, para evitar a maceração da pele, que pode ocorrer devido ao calçado.
  • Massajar bem a base das unhas das mãos e dos pés para estimular o seu crescimento.
  • Em termos de formulação, privilegiar ingredientes relipidantes, como a manteiga de karité e as ceramidas, por exemplo.
  • Lembrar sempre o uso de protetor solar 50+, anti-UVA/UVB.

A roupa e os acessórios são também um importante escudo protetor. Usar vestuário confortável de corte largo e de tecidos macios, como o algodão ou a seda. Para lavar a roupa, usar detergentes hipoalergénicos sem fragrância. Evitar barbear e depilar durante algum tempo, assim como utilizar desodorizantes, perfumes e loções com álcool, e expor a pele a água com cloro. Um spray de água termal pode ser utilizado ao longo do dia, nas áreas sensíveis da pele, para um efeito apaziguante. Deve-se evitar coçar a pele para não promover infeções. Preventivamente, é crucial manter as unhas curtas.

Maquilhagem: a maquilhagem não está contra-indicada mas, como cosmética que é, obedece aos pressupostos anteriores e deve ser sempre aplicada numa pele limpa, hidratada e protegida do sol. Não valerá a pena exagerar na sua complexidade porque maquilhar implica desmaquilhar, e a fricção exagerada na pele na sua remoção diária não é uma boa opção. Ainda assim, homens e mulheres podem usar maquilhagem para camuflar alguns sinais visíveis, tais como olheiras, cicatrizes, manchas, e promover a auto-estima individual.

Durante todo este processo de tratamento, devemos lembrar que tratar o cancro não é apenas tratar a doença. Como complemento aos tratamentos oncológicos específicos, existem todos os outros que servem para melhorar a qualidade de vida. Cuidar do corpo, bem-estar e imagem não deve ser visto como algo supérfluo durante o curso da doença oncológica, mas sim como algo crucial para a manutenção plena da saúde física e mental dos indivíduos. Falar sobre este tema sem tabus, e trazer a beleza ao doente oncológico, ajudará a que todos passem por esta etapa da vida com maior conforto físico e mental, ou seja, com mais saúde.

Farmacêutica de formação e especialista em Cosmética, Joana Nobre trabalha na Indústria Farmacêutica desde 2005. O rigor é a sua imagem de marca, algo bem patente nesta nova rubrica que criou para a Miranda, que incluirá sempre a versão áudio do texto.

Os conteúdos mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Brasil e fique por dentro.

Siga-nos na sua rede favorita.