O voo, com destino a Doha, aconteceu no momento em que os talibãs tentam fortalecer seu regime, menos de um mês depois de tomarem o controle do país.

Os passageiros embarcaram sob a vigilância de guardas do Catar. Doha está bastante envolvida na operação, bem como na reativação do aeroporto de Cabul, que fechou após a retirada americana. Doha e a aliada Turquia trabalham há dias para recuperar a estrutura aeroportuária.

Entre os passageiros do avião, que outras fontes calcularam errôneamente em cerca de 200, estavam 43 canadenses e um número indeterminado de americanos. Um afegão com nacionalidade americana contou à AFP que foi avisado de última hora. "Telefonaram esta manhã e me disseram que fosse para o aeroporto", explicou, antes de embarcar com a família.

Em entrevista à AFP, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu à comunidade internacional que mantenha o diálogo com os talibãs, alertando que um "colapso econômico" e a morte de milhões de pessoas devem ser evitados.

"Devemos ter um diálogo com o Talibã, no qual afirmamos diretamente nossos princípios, um diálogo com um sentimento de solidariedade com o povo afegão", declarou Guterres. "Nosso dever é estender nossa solidariedade a um povo que sofre muito e no qual milhões e milhões correm o risco de morrer de fome", acrescentou.

- EUA elogiam cooperação -

Os Estados Unidos reconheceram que falta retirar muitos afegãos potencialmente em risco. Em comunicado, a Casa Branca elogiou a "cooperação e flexibilidade" dos talibãs após o voo de hoje: "É um primeiro passo positivo."

"Esperamos que, em um futuro próximo, o aeroporto esteja pronto para qualquer tipo de voo comercial", disse o porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid.

A enviada da ONU ao Afeganistão, Deborah Lyons, ressaltou no Conselho de Segurança nesta quinta-feira que os talibãs haviam cometido assassinatos após assumirem o poder. "Existem acusações de mortes por retaliação contra membros das forças de segurança e de prisões de autoridades que trabalharam para governos anteriores", afirmou.

Ainda assim, Deborah pediu a manutenção da ajuda ao Afeganistão, para evitar uma "recessão econômica grave, que poderia levar milhões de pessoas à pobreza e à fome".

- Protestos proibidos -

Em Cabul, os islamitas trabalham para consolidar seu poder, às vésperas do aniversário do 11 de Setembro, ponto de partida da invasão ocidental ao Afeganistão, que expulsou os talibãs do comando do país.

Embora os talibãs insistam em que mudaram e que não são mais aquele regime repressivo, especialmente com as mulheres, que governou entre 1996 e 2001, suas primeiras semanas no poder mostram que não vão tolerar nenhum tipo de oposição.

Nesta quinta-feira, vários protestos em favor da liberdade foram cancelados na capital afegã, depois que o novo governo proibiu esse tipo de ação sem autorização do Ministério da Justiça. Nas ruas de Cabul, viam-se muito mais combatentes talibãs armados do que nos dias anteriores, nas esquinas e nos postos de controle do tráfego nas grandes avenidas.

Ao longo da semana, talibãs armados dispersaram concentrações de centenas de pessoas em várias cidades do país, incluindo Cabul, Faizabad (nordeste) e Herat (leste), onde duas pessoas foram mortas a tiros.

Para encerrar as manifestações, na quarta-feira à noite, o novo governo talibã ordenou que qualquer protesto fosse autorizado previamente pelo Ministério da Justiça. E que, "por enquanto, nenhum foi".

- Ganhar legitimidade -

Os talibãs anunciaram seu governo de transição, composto por membros ultraconservadores, alguns dos quais já governaram durante o regime fundamentalista brutal da década de 1990.

Vários ministros estão nas listas de sanções da ONU e não há mulheres no gabinete.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, alertou o novo governo que deve "conquistar" sua legitimidade perante a comunidade internacional, após o anúncio deste gabinete que inclui membros procurados por Washington.

Apesar de o Talibã ter prometido incluir membros de outros grupos no governo, a realidade é que os principais cargos anunciados são ocupados por líderes talibãs: o ministério do Interior é liderado por Sirajuddin Haqqani, chefe da temida rede Haqqani - classificada como terrorista pelos Estados Unidos - e da Defesa por mulá Yaqub, filho do mulá Omar, fundador do movimento.

Mohammad Hasan Akhund, que foi ministro entre 1996 e 2001, é o responsável pelo governo.

Os talibãs também recriaram o temido Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, que, no regime anterior, garantia que a população respeitasse sua interpretação estrita da lei islâmica.

Nesta quarta-feira, o ex-presidente Ashraf Ghani, cuja fuga em 15 de agosto abriu as portas de Cabul e do poder ao Talibã, pediu desculpas ao povo afegão por não ter oferecido um futuro melhor.

Este novo governo enfrenta a difícil tarefa de retomar a economia do país e lidar com problemas complexos de segurança, incluindo a filial local do grupo Estado Islâmico, rival do Talibã e por trás de ataques sangrentos.

Enquanto isso, por todo o país surgem símbolos marcando os novos governantes.

Em imagens que circularam nas redes sociais, é possível constatar que o principal aeroporto do país, antes denominado Hamid Karzai International em homenagem ao primeiro presidente pós-Talibã, passou a se chamar Kabul International.

E um feriado nesta quinta-feira em memória ao famoso comandante Ahmed Shah Masud, assassinado em 2001 pela Al-Qaeda, também foi cancelado.

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