Em um contexto de tensão entre a França e a Turquia, o semanário estampou Erdogan de cueca, com uma cerveja na mão, enquanto levanta o hijab (véu integral) de uma mulher e grita: "Oh! O profeta!"

O desenho despertou a ira em Ancara, que abriu uma investigação por "insulto ao chefe de Estado" e prometeu uma "ação diplomática", sem dar maiores detalhes.

Em um tuíte publicado na terça-feira à noite, o ministro turco da Cultura, Serdam Can, escreveu em francês: "@Charlie_Hebdo_São uns bastardos.. São filhos de uma cadela...".

O delegado interministerial para a luta contra o racismo na França anunciou nesta quarta-feira (28) à AFP ter recorrido à justiça contra o tuíte, que foi "retirado na França, devido às leis locais", segundo o Twitter.

Nos últimos dias, Erdogan multiplicou os ataques a seu contraparte francês, Emmanuel Macron, acusando-o de "islamofobia" por defender o direito a fazer caricaturas do profeta Maomé durante uma cerimônia em homenagem ao professor francês, decapitado por ter mostrado este tipo de desenho durante uma aula.

Afirmando que não tinha visto as últimas caricaturas sobre ele no Charlie Hebdo, Erdogan expressou sua revolta, devido não "ao infame ataque contra a minha pessoa, mas aos insultos contra o profeta" Maomé.

"Sabemos que o alvo não é a minha pessoa, mas nossos valores", prosseguiu o presidente turco, cujo porta-voz havia feito a denúncia anteriormente contra um "racismo cultural".

- França rejeita tentativa de desestabilização -

Apesar das "tentativas de desestabilização e intimidação", a França nunca "renunciará a seus princípios e valores", afirmou nesta quarta o porta-voz do governo francês, Gabriel Attal, destacando a "unidade europeia" em torno de Paris.

As relações entre a Turquia e a França têm se deteriorado progressivamente desde o ano passado devido, em particular, a desavenças sobre a Síria, a Líbia e o Mediterrâneo oriental.

As tensões se intensificaram na semana passada quando Erdogan, acusando Macron de realizar uma "campanha de ódio" contra o islã, questionou seu "estado mental".

O chefe de Estado turco, que quer se apresentar como o defensor do islã para polir sua imagem junto à sua base eleitoral e na região, convocou na segunda-feira um boicote aos produtos franceses, mas seu apelo parece ter sido relativamente pouco seguido.

Apesar das crescentes tensões, o chefe da diplomacia turca, Mevlüt Cavusoglu, informou na quarta-feira que Ancara não previa "no momento" retirar seu embaixador de Paris, depois de a França convocar no sábado seu representante na Turquia.

Em plena guerra de palavras, o porta-voz do governo francês quis "fazer lembrar de forma muito clara que declarações odiosas contra jornalistas e uma redação são as que provocam atentados, dramas, massacres (...) no nosso país".

O Charlie Hebdo foi alvo, em 2015, de um atentado jihadista que deixou vários mortos, após ter publicado caricaturas do profeta Maomé.

O duelo entre Ancara e Paris se inscreve em um contexto mais amplo de revolta no mundo muçulmano com relação à frança pela defesa das caricaturas de Maomé, cuja representação é um tabu para o islã.

O apoio de Macron a estas caricaturas em nome da laicidade e da liberdade de expressão é considerado por muitos muçulmanos uma tomada de posição hostil ao islã.

O Paquistão convocou os líderes muçulmanos a uma ação coletiva contra a islamofobia, enquanto centenas de pessoas protestaram na quarta-feira nas ruas de Mogadíscio e outras cidades da Somália. No Mali, 5.000 fiéis foram às ruas.

Líderes iranianos advertiram, por sua vez, que insultar Maomé pode incitar à violência. "Insultar o profeta não é uma façanha. É imoral. Isso fomenta a violência", afirmou o presidente Hassan Rohani, enquanto o guia supremo do país, Ali Khamenei, advertiu Macron de que o apoio ao Charlie Hebdo é "um ato estúpido".

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