Os nove membros deste "tribunal uigur", assim denominado apesar de não possuir nenhuma autoridade judicial, receberão depoimentos em primeira mão sobre supostos crimes contra os uigures: esterilizações forçadas, torturas, sequestros e trabalhos forçados.

Os organizadores pretendem determinar, depois das audiências, se acreditam que Pequim é culpada por genocídio e crimes contra a humanidade contra os uigures e outras minorias muçulmanas na China.

Seu vice-presidente, Nick Vetch, se negou a fazer comentários sobre as críticas da China a este procedimento.

Vetch prometeu que seu trabalho será "imparcial", baseando-se nos depoimentos tomados nesta semana e em setembro e em "milhares de páginas" de documentos já acumulados. Vai se basear "em provas, nada além de provas", disse à AFP.

No primeiro depoimento, Qelbinur Sidik, ex-professora de etnia uzbeka em Urumqi, a capital de Xinjiang, afirmou na sexta-feira que as autoridades ordenaram que ela ensinasse chinês em dois campos de "reeducação para uigures, sujos e lotados, um masculino e outro feminino.

Sidik afirmou que foi esterilizada à força antes de obter um visto para visitar sua filha na Holanda e fugir da China.

"As coisas que presenciei e vivi não poderei esquecer nunca mais", afirmou.

- Sanções -

Omir Bekali, do Cazaquistão e de origem uigur, relatou que foi detido quando visitava sua família em Xinjiang.

"Durante os primeiros quatro dias e noites, me torturaram sem parar", afirmou, "me prenderam do teto" e "me agrediram no corpo e nos pés". Seu pai foi assassinado, seu irmão, classificado como "terrorista" como sua irmã, ficou com incapacitado após sessões de tortura, conta ele.

Especialistas estrangeiros afirmam que mais de um milhão de uigures, o principal grupo étnico de Xinjiang, estão presos em campos de reeducação e alguns são submetidos a "trabalhos forçados".

Pequim nega essa acusação e afirma que são, na verdade, centros de treinamento profissional destinados a afastá-los do terrorismo e do separatismo após atentados atribuídos aos uigures.

O relatório do "tribunal uigur" é esperado para dezembro. Apesar de não ter nenhuma força legal, os participantes esperam chamar a atenção internacional e gerar possíveis ações.

"Caberá aos Estados, às instituições internacionais, às empresas, às instituições de arte, de medicina, de educação e aos particulares determinarem como aplicar a sentença, seja qual for", afirmaram os organizadores.

Esta iniciativa foi criada a pedido do Congresso Mundial Uigur, o maior representante da comunidade uigur no exílio, que pede à comunidade internacional para agir contra a China.

"Não é nem um tribunal verdadeiro ou um tribunal especial, é simplesmente uma máquina de mentir", disse na semana passada o porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Zhao Lijian.

Essas audiências em Londres ameaçam agravar as já fortes tensões entre Reino Unido e China, alimentadas pela repressão aos protestos pró-democráticos em Hong Kong e pela exclusão da rede 5G britânica do fabricante chinês de equipamentos de telecomunicações Huawei, suspeito de espionar para Pequim.

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