O partido Novas Ideias (NI), que Bukele ajudou a formar e que disputou uma eleição pela primeira vez, juntamente com a Grande Aliança Nacional (GANA), que o levou ao poder em 2019, obtinham juntos mais da metade dos votos para o Parlamento, segundo apuração preliminar de 89,46% dos votos, difundida pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE).

"Estamos contentes com esse grande resultado, contentíssimos, como se tivéssemos ganhado na loteria", disse à AFP José David Paredes, um trabalhador a construção de 57 anos, simpatizante de Bukele.

O governante, que comemorou sua "vitória" pelo Twitter no domingo, compartilhou por esta rede social uma pesquisa de boca-de-urna da empresa costa-riquenha Cid Gallup, que atribuiu ao Novas Ideias 67% dos votos para o Parlamento. Não foram divulgados detalhes técnicos da consulta.

"Novas Ideias + GANA terão mais de 60 deputados (...) Graças ao povo salvadorenho. Graças a Deus", escreveu, chamando atenção para uma façanha que nenhum partido conseguiu em três décadas.

- Golpe para os tradicionais -

Com 39 anos, o governante tem criticado duramente os partidos tradicionais, aos quais acusa de desassistir a população e as vítimas da guerra civil (1980-1992), a ponto de questionar os acordos de paz.

De acordo com a contagem do TSE, a Aliança Republicana Nacionalista (Arena, direita) e a ex-guerrilheira Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN, esquerda), que já foram governo e controlaram o Congresso, serão minoria.

A contagem preliminar em tempo real permite ao TSE marcar a quantidade de votos que cada organização política recebe.

Na terça-feira, começará a contagem oficial, na qual se determinará quantos dos 84 assentos do Congresso Unicameral corresponde a cada partido, informou à AFP uma fonte do TSE.

Com maioria absoluta, Bukele poderá influenciar nas nomeações da Corte Suprema de Justiça, da Controladoria e da Procuradoria, com as quais têm tido disputas.

E se alcançar a maioria qualificada (56 assentos), poderá empreender reformas de fundo, como as constitucionais.

Para o eleitor José David Paredes, "sempre se precisa da oposição, mas não será mais uma oposição diabólica como a que existia, que bloqueava tudo".

José Fabricio Ortiz, um trabalhador de 56 anos, considerou que a votação é um reconhecimento direto a Bukele, "por tudo o que tem feito pelo país".

O governante também está vencendo em mais da metade dos 262 municípios em disputa.

- Cavalos de batalha -

Bukele tem em sua carta de apresentação a luta contra a atuação das gangues Barrio 18 e Mara Salvatrucha (MS-13), esta última declarada organização terrorista pelos Estados Unidos. El Salvador foi considerado até 2019 um dos países sem guerra mais violentos do mundo, mas Bukele conseguiu reduzir a taxa de homicídios.

Ele tem as Forças Armadas como aliadas, tanto para levar alimentos a famílias afetadas pela pandemia, quanto para aparecer no Parlamento opositor escoltado por tropas e pedir a aprovação de um empréstimo para um plano de segurança de seu governo.

"Nos espera um cenário muito complicado de crise que não vai poder ser abordado com eficácia se não houver acordos nacionais", declarou à AFP a pesquisadora independente para organismos da ONU, Jannet Aguilar.

O governante também pagou um bônus de 300 dólares e alimentos a famílias necessitadas em um país onde a dívida externa atinge 90% do PIB.

De acordo com alguns analistas, os problemas econômicos podem aumentar a migração em busca de melhores oportunidades, um dos maiores problemas que afetam as famílias centro-americanas.

- Manter a independência -

A missão de observação eleitoral da Organização de Estados Americanos (OEA) destacou a "alta participação" dos eleitores, mas considerou que o processo eleitoral foi celebrado em meio a um contexto de "grande polarização" entre os candidatos e por isso se "manterá atenta ao avanço da contagem oficial" das eleições nos próximos dias.

O diretor da ONG The Washington Office on Latin America (WOLA), Gepff Thale, assegurou em um comunicado que "manter a independência" dos poderes Legislativo e judiciário "será um assunto crítico" após as eleições.

O Arena, que governou entre 1989 e 2009, sofreu o desgaste de ver presos dois de seus ex-presidentes: Francisco Flores (1999-2004, já falecido) e Elías Antonio Saca (2004-2009), pelo desvio, entre os dois, de mais de 315 milhões de dólares.

"É um golpe para a esquerda. O povo falou e nós aceitamos sua decisão", expressou em coletiva de imprensa Oscar Ortiz, secretário-geral da FMLN.

Os conteúdos mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Brasil e fique por dentro.

Siga-nos na sua rede favorita.