Guterres alertou que a crise gerada pela invasão russa à Ucrânia, que se soma às mudanças climáticas, à pandemia e às desigualdades crescentes entre os países, poderia durar anos. "Se não alimentamos as pessoas, alimentamos os conflitos", disse Guterres em reunião convocada pelos Estados Unidos na ONU para analisar a segurança alimentar global.

"A Rússia deve permitir a exportação segura de cereais armazenados nos portos ucranianos", disse o secretário, afirmando que "podem ser exploradas" vias de "transporte alternativas" para a saída marítima dos cereais armazenados em particular nos silos de Odessa, "embora saibamos que não será suficiente para resolver o problema". Ao mesmo tempo, "os alimentos e os fertilizantes russos devem ter acesso completo e sem restrições aos mercados mundiais", pediu o chefe da ONU.

Segundo o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, haveria 22 milhões de toneladas de grãos aguardando as condições para serem exportados pelos portos do sul do país que a Rússia controla majoritariamente, em particular Odessa.

Estes fertilizantes não estão submetidos às sanções ocidentais adotadas contra Moscou após a invasão russa da Ucrânia, mas sua compra por países estrangeiros pode ser bloqueada pelas medidas adotadas contra o sistema financeiro russo, segundo diplomatas.

António Guterres negocia estes dois assuntos há semanas com Rússia, Ucrânia, Estados Unidos, União Europeia e Turquia, que podem dar seu apoio para a retirada das minas dos arredores dos portos ucranianos e garantir o deslocamento dos navios.

"Tenho esperanças, mas ainda há um caminho a percorrer. As implicações de segurança, econômicas e financeiras complexas, exigem a boa vontade de todas as partes", declarou.

É que "não há solução eficaz para a crise alimentar sem reintegrar nos mercados mundiais, apesar da guerra, a produção alimentar da Ucrânia, assim como os alimentos e os fertilizantes produzidos por Rússia e Belarus".

Para Guterres, a guerra na Ucrânia amplificou e acelerou os fatores que contribuem para a crise alimentar mundial: mudança climática, pandemia de covid-19 e desigualdades crescentes entre países ricos e pobres.

A crise "ameaça fazer dezenas de milhões de pessoas caírem na insegurança alimentar, na desnutrição, na fome" e "poderia durar anos", advertiu. "Em apenas dois anos, o número de pessoas que sofrem de insegurança alimentar grave dobrou, passando de 135 milhões antes da pandemia para 276 milhões atualmente", declarou o chefe da ONU.

O diretor do Programa Alimentar Mundial (PAM), David Beasley, lembrou que as despesas operacionais das suas operações aumentaram 71 milhões de dólares apenas devido ao aumento do combustível, dos alimentos e dos fretes, gerado por essas crises. "Isso significa que alimentaremos 4 milhões de pessoas a menos, ressaltou.

- Resposta global -

Para Blinken, anfitrião do encontro, "a crise exige uma resposta global". Nesse sentido, pediu aos países que injetem dinheiro nas organizações do sistema, como FAO, Unicef e PAM, para que possam continuar levando ajuda aos necessitados, como fizeram os Estados Unidos, que anunciaram mais de 2,3 bilhões em novos fundos para a assistência alimentar de emergência desde a invasão russa.

Lembrando cifras do Banco Mundial, Blinken disse que a guerra na Ucrânia poderia "levar 40 milhões de pessoas no mundo à extrema pobreza e à insegurança alimentar", e culpou "unicamente a Rússia".

Para mitigar a falta de alimentos, Blinken defendeu um esforço dos agricultores para aumentar a produção. Nesse sentido, o ministro da Agricultura brasileiro, Marcos Montes, disse que o Brasil "é um dos poucos países do mundo capaz de aumentar a produção sem incorporar novas áreas à cadeia produtiva".

- Ajuda milionária -

O Banco Mundial (BM) anunciou hoje que irá destinar mais US$ 12 bilhões nos próximos 15 meses para projetos de combate à crise alimentar mundial, agravada pela guerra na Ucrânia. "No total, isso representa mais de 30 bilhões de dólares disponíveis para a luta contra a insegurança alimentar nos próximos 15 meses."

A maior parte dos recursos irá para países da África, do Oriente Médio, da Europa Oriental e da Ásia Central e para o Sul Asiático, disse o Banco Mundial em um comunicado.

A instituição acrescentou que os fundos vão apoiar a agricultura, fornecer "proteção social para amortecer os efeitos do aumento de preços dos alimentos" e promover projetos de abastecimento de água e de irrigação.

A alta dos preços dos alimentos tem "efeitos devastadores" para os mais pobres e vulneráveis, ressaltou o presidente da instituição, David Malpass.

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