A Berlinale entrega seus cobiçados "Ursos" na sexta-feira. Em geral, o júri premia o melhor ator e a melhor atriz, cada um com um Urso de Prata.

Mas este ano, o festival quer ser pioneiro na luta contra a discriminação e os estereótipos de gênero, tema atual no mundo do cinema depois do escândalo "#MeToo".

"Pela primeira vez, os prêmios serão definidos de uma forma neutra em termos de gênero", com um simples "Urso de Prata para Melhor Atuação" e um "Urso de Prata para Melhor Coadjuvante", anunciaram os organizadores.

No cinema, o único prêmio que "distingue os sexos [era] o de atuação", disse à AFP Mariette Rissenbeek, codiretora do Berlinale.

"Acreditamos que podemos avançar nas discussões sobre igualdade [...] e também consideramos as pessoas que não querem ser designadas a nenhum gênero."

- "Ato político" -

A decisão foi aplaudida por vários diretores e intérpretes do concurso.

Para a diretora libanesa Joana Hadjithomas, "é um ato simbólico forte, dizer: 'um ator é um ator', não é o seu gênero que determina" o seu valor.

O japonês Ryusuke Hamaguchi destacou que este novo prêmio "reflete a essência do cinema", que, como arte, não distingue "com base no gênero".

"Isso também abre as portas para um debate mais amplo, especialmente a questão de quem deveria interpretar os papéis de lésbicas, gays, etc.", disse a atriz alemã Maren Eggert.

O anúncio, feito pelo Berlinale em meados de 2020, foi comentado por personalidades do cinema que se destacaram na luta pela igualdade de gênero, como a britânica Tilda Swinton e a atriz australiana Cate Blanchett, entrevistada pela AFP no Festival de Cinema de Veneza.

"Uma boa atuação é uma boa atuação, seja qual for a orientação sexual ou da pessoa que a realiza".

A decisão da Berlinale, por enquanto, não influenciou os grandes festivais.

- "Boas intenções" -

"Existem opiniões diferentes sobre os prêmios 'sem gênero' e respeitamos diferentes pontos de vista", enfatizou Rissenbeek.

Em termos de igualdade entre homens e mulheres, alguns até temem que a decisão pode premiar mais homens.

O caminho para "o inferno é pavimentado com boas intenções", advertiu a historiadora da sétima arte, Geneviève Scellier.

"O problema subjacente é que os papéis masculinos são mais interessantes", mais numerosos e mais presentes na tela "do que os femininos", disse ela.

A premiação sem gênero na Berlinale se deve mais à ideia de fazer algo "politicamente correto", considerou o sindicato de atores e atrizes alemães, que defende que, antes de tudo, "as mulheres sejam mais visíveis".

A mesmo é a opinião da associação alemã Pro Quote, que milita para que a distribuição dos papéis no cinema seja equitativa, já que, segundo ela, 70% dos papéis são masculinos.

"Em primeiro lugar, devemos defender a visibilidade das mulheres no cinema e alcançar a igualdade", disse à AFP uma de suas integrantes, a agente Chun Mei Tan.

"Só então podemos falar sobre a introdução de prêmios sem gênero".

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