Mais de 535 pessoas, entre elas vários estudantes, adolescentes e crianças, morreram vítimas da repressão do regime às manifestações contra o golpe de Estado de 1º de fevereiro, segundo a Associação para a Assistência a Presos Políticos (AAPP). Centenas de pessoas foram detidas, e muitas estão desaparecidas, disse a AAPP.

Em um texto suavizado pela China e emitido após dois dias de negociações, o Conselho de Segurança da ONU manifestou nesta quinta, em declaração unânime, que "condena energicamente" as mortes de civis.

"Membros do Conselho de Segurança expressaram profunda preocupação com a situação que se deteriora rapidamente e condenam energicamente o uso da violência contra manifestantes pacíficos e as mortes de centenas de civis, incluindo mulheres e crianças", diz a declaração promovida pelo Reino Unido.

Nela não se menciona a possibilidade de impor sanções internacionais, o que o Reino Unido e os Estados Unidos solicitavam, e ao que a China se contrapõe, embora peça "voltar a uma transição democrática".

Por enquanto, as tomadas de posições do Conselho de Segurança não tiveram efeito nos militares.

A junta ordenou aos provedores de internet birmaneses que cortem todas as conexões wi-fi, a fim de limitar as comunicações, informou nesta quinta-feira a empresa de telecomunicações Ooredoo.

Esta interrupção da internet foi condenada nesta quinta por dezenas de países-membros da ONU, que denunciaram, em uma declaração redigida por Lituânia, França e Grécia, "os ataques" contra os veículos de comunicação no país. Estes três países copresidem o grupo de amigos da ONU para a Proteção dos Jornalistas.

Antes disso, Aung Suu Kyi, de 75 anos, prestou depoimento por videoconferência ante um tribunal em Naipyidó, capital do país, em um audiência para designar seus oito advogados de defesa.

Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, ela "parece estar bem de saúde", disse um de seus advogados, Min Min Soe, na quarta-feira, após falar com ela também por videoconferência. "Estava brilhante e encantadora como sempre", comentou o advogado Khin Maung Zaw.

Mais tarde, Zaw explicou à AFP que Aung Suu Kyi foi acusada de violar uma lei sobre segredos de Estado em um processo aberto no último dia 25. Ela já era alvo de outras acusações, entre elas "incitação à desordem pública". Também é acusada de receber subornos, mas ainda não foi indiciada por corrupção".

A próxima audiência foi marcada para 12 de abril.

A líder birmanesa poderia ser condenada a vários anos de prisão e ser banida para sempre da vida política.

- Constituições incendiadas -

Deputados de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), anunciaram na quarta-feira a formação na primeira semana de abril de "um novo governo civil" de resistência.

Na clandestinidade desde o golpe de Estado, também anunciaram que a Constituição de 2008 elaborada pelo regime militar anterior estava "anulada".

Manifestantes queimaram na quinta-feira uma pilha de cópias do documento em uma rua de Yangon, a capital econômica, onde incendiaram durante a madrugada os supermercados do Exército.

Um manifestante de 31 anos morreu em Monywa (centro) e outros dez ficaram feridos, disse um socorrista à AFP.

Nesta quinta-feira, os manifestantes realizaram vigílias à luz de velas e orações em silêncio em memória dos "mártires" que morreram nos últimos dois meses.

A Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho acusou as forças de segurança de "deter injustificadamente, intimidar e ferir" os socorristas.

No dia anterior, em uma reunião a portas fechadas do Conselho de Segurança da ONU, sua enviada para Mianmar Christine Schraner Burgener alertou sobre a possibilidade de uma "guerra civil em um nível sem precedentes".

"Exorto este Conselho a considerar todos os meios à sua disposição para tomar medidas coletivas e fazer o que for necessário, o que o povo birmanês merece, para evitar uma catástrofe multidimensional no coração da Ásia", frisou.

- Grupos étnicos -

Nesta quinta, o Reino Unido, antiga potência colonial, impôs novas sanções a interesses financeiros da junta militar, concretamente contra o conglomerado Myanmar Economic Corporation (MEC).

A repressão aos civis enfureceu os cerca de vinte grupos armados atualmente existentes em Mianmar, alguns dos quais lançaram ataques contra a polícia, que o exército respondeu com bombardeios.

Desde a independência de Mianmar, em 1948, uma multiplicidade de grupos étnicos mantém conflitos com o poder central e o exército havia chegado a um cessar-fogo com vários deles nos últimos anos.

Mas, desde o golpe, alguns expressaram seu apoio ao levante popular, retomaram as armas ou ameaçam fazê-lo.

Ao menos 20 soldados morreram e quatro caminhões militares foram destruídos na quarta-feira em um ataque do Exército da Independência Kachin (KIA), segundo o veículo de imprensa local DVB News.

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