Os europeus farão esta proposta durante as negociações do Conselho de Administração, que se reúne esta semana na sede da AIEA em Viena, para encontrar um equilíbrio entre firmeza e contenção, que sirva para salvar o pacto de 2015, o Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA, com siglas em Inglês).

O pacto está em jogo desde que o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu retirar-se unilateralmente dele em 2018, e retomou as sanções econômicas, embora o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tenha prometido reverter essa decisão.

Mas essa resolução poderia inviabilizar o acordo temporário de três meses que o diretor-geral da AIEA, o argentino Rafael Grossi, chegou junto ao Irã em 23 de fevereiro para mitigar o que chamou de "grande perda" em termos de inspeções da agência da ONU.

No caso de uma votação de uma resolução crítica, o Irã ameaçou "acabar" com essa solução, pela qual promete fornecer todos os dados das câmeras e outras ferramentas caso as sanções sejam suspensas no final desse período.

"A introdução de uma resolução, em total comprometimento das trocas construtivas com a agência, seria totalmente contraproducente e destrutivo", alertou a República Islâmica em uma nota informal dirigida aos estados membros.

- Oposição da Rússia -

Segundo várias fontes, a resolução proposta pelos europeus poderia ser votada na sexta-feira e teria o apoio dos Estados Unidos.

A AFP teve acesso a uma versão do texto, que "expressa a séria preocupação [desses países] sobre a decisão do Irã de parar de cumprir" alguns de seus compromissos relacionados às inspeções e "pede ao Irã para retomar imediatamente a implementação".

Uma fonte diplomática afirmou que a possibilidade do Irã não cumprir o acordo é um "risco que deve ser assumido" para proteger "a credibilidade da agência" e resistir à "chantagem" da República Islâmica.

O último alerta data de junho de 2020, após a recusa da República Islâmica em autorizar a inspeção de duas fábricas suspeitas. Tratou-se da primeira resolução crítica desde 2012.

Em vez disso, a Rússia se opôs claramente ao texto. Tal medida seria um "erro lamentável", tuitou o embaixador russo, Mikhail Ulyanov, nesta segunda-feira.

O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, por sua vez, destacou que os atentados perpetrados pelos Estados Unidos na Síria na semana passada contra milícias pró-Irã estavam encaminhados a minar qualquer negociação.

"Não há dúvida de que forças influentes em Washington tomaram medidas para interromper esta reunião", ressaltou Sergei Ryabkov, citado pela agência de notícias russa TASS.

- "Um respiro de boa fé" -

Antes do início da reunião, no entanto, Rafael Grossi afirmou que inspeções nucleares no Irã devem continuar e não devem ser utilizadas como "moeda de troca nas negociações" diplomáticas.

Em alusão ao acordo temporário assinado com a AIEA, o porta-voz da diplomacia iraniana, Saeed Khatibzadeh, declarou nesta segunda-feira que "o Irã deu à outra parte uma trégua de boa fé".

"Esperamos que o outro lado aprecie esta abordagem de diplomacia e cooperação", acrescentou.

Nas últimas semanas, a República Islâmica deu um novo passo no sentido de se retirar do acordo (nível de enriquecimento de urânio de 20%, produção de urânio metálico e limitação de inspeções), para levar os Estados Unidos a retirarem as sanções que sufocam sua economia.

Fechado em 2015, em Viena, entre o Irã e o grupo 5+1 (França, Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha), o JCPOA pretendia inicialmente cercar o programa nuclear da República Islâmica em troca de flexibilização das sanções internacionais.

Apesar de suas negativas, Teerã é acusado de buscar se equipar com uma arma atômica, principalmente por Israel, seu inimigo jurado.

"O Irã mostrou moderação ao negociar este acordo técnico com a AIEA, e seria uma loucura se os americanos perdessem o tempo ganhado", argumentou Kelsey Davenport, diretora de política de não proliferação da Associação de Controle de Armas, que pede a Washington por um "gesto concreto".

"No curto prazo", a agência da ONU pode continuar fazendo seu trabalho sem grande impacto nas inspeções, "mas se a situação se prolongar, a confiança na natureza pacífica do programa nuclear se enfraquecerá", alertou.

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