Leila Bouazizi, de 34 anos, originária de uma família modesta de Sidi Bouzid, capital de uma região desfavorecida do centro-oeste da Tunísia que se tornou a casa da Revolução de Jasmim, respondeu a perguntas da AFP em Quebec, aonde ela chegou como estudante em 2013.

Enquanto relembra o ato de seu irmão mais velho, ela é categórica: apesar da democratização em marcha, a revolução não permitiu responder aos problemas principalmente "econômicos" que a motivaram. "Muito decepcionada", ela "espera que isso mude".

Assim como muitos jovens desempregados, Mohamed Bouazizi, então com 26 anos, ganhava a vida com um pequeno comércio informal de venda de frutas e legumes.

Em 17 de dezembro de 2010, ele se auto-imolou com fogo depois que a polícia apreendeu mais uma vez sua mercadoria e a carroça que lhe servia de barraca.

Quando foi pleitear seu caso junto às autoridades locais, "ele não teve resposta". Mohamed estava "realmente muito irritado", lembra-se Leila. "Foi por isso que ele pegou a gasolina", acrescenta. Ele sucumbiu a seus ferimentos no começo de janeiro de 2011.

"Foi um acúmulo de coisas que o fez explodir", explica a irmã.

- Ameaças e assédio -

Este gesto de desespero foi o estopim para as manifestações em Sidi Bouzid, que se estenderam para todo o país, apoiadas pela força de mobilização do sindicato UGTT e pela caixa de ressonância das redes sociais.

Depois de um mês de uma revolta popular sem precedentes, o presidente Zine El Abidine Ben Ali, no poder há 23 anos, foge em 14 de janeiro de 2011.

"Após a imolação do meu irmão, todo mundo (...) protestou contra o sistema", lembra Leila, ressaltando o que Mohamed viveu e denunciando "a mesma situação" vivida por muitos jovens.

"Não foi apenas o meu irmão, há muita gente que perdeu a vida" reivindicando melhores condições de vida.

Após a morte de Mohamed, a família Bouazizi foi alvo de assédio e "muitas ameaças", inclusive de morte, pelas redes sociais ou na rua da parte de críticos da revolução.

Invejados, também foram acusados de terem se aproveitado da morte de um jovem para enriquecer. "Era perigoso", diz ela, e sua mãe, seus irmãos e irmãs foram ao seu encontro em Quebec, no Canadá, onde eles se "integraram bem". Desde então maquinista da aeronáutica em Montreal, Leila continua a acompanhar, do exílio, as transformações na Tunísia.

- "Pior agora" -

Dez anos depois, houve alguns avanços, reconhece Leila: o país adotou uma nova Constituição e organizou eleições democráticas.

"Podemos falar, podemos nos manifestar (...) Antes, não tínhamos o direito de julgar, de falar". "O voto é muito importante".

Mas os governos sucessivos não consertaram a situação econômica, ainda difícil particularmente para os jovens, ressalta.

"A cada vez, votamos e eles dizem, 'vamos mudar', (...) mas assim que assumem o poder, nada de mudança".

Ela condena a falta de medidas concretas para, por exemplo, reformar um sistema de saúde deficiente ou para canalizar a água da chuva, que causa mortes a cada ano.

A taxa de desemprego dos jovens em regiões marginalizadas é de duas a três vezes superior aos 16% da média nacional.

"A situação talvez seja pior agora", avalia Leila, citando o aumento do custo de vida, que corrói salários irrisórios.

Dezenas de jovens continuam a se imolar anualmente na Tunísia diante da indiferença, enquanto outros arriscam suas vidas para chegar à Europa clandestinamente.

Na Tunísia, "quando alguém termina os estudos, não encontra nada (...) Mesmo com um salário médio, não conseguem viver como precisam".

Mas Leila mantém a esperança porque muitos tunisianos "não param de se manifestar, de falar". Segundo ela, o ato do seu irmão "deu muita força" para "mudar o sistema".

"Talvez leve mais de dez anos: é preciso que os jovens continuem a se manifestar, a falar, para conseguir seus direitos".

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