"O mundo mudou desde Paris. E não foi para melhor (...) Vemos os efeitos atribuídos às mudanças climáticas provocadas pelo ser humano (...) Enfrentamos os danos", resumiu em entrevista recente Saleemul Huq, diretor do Centro Internacional para as Mudanças Climáticas e o Desenvolvimento, sediado em Bangladesh, um dos países mais ameaçados pelas consequências da elevação da temperatura no planeta.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi mais contundente.

"A humanidade está em guerra contra a natureza. É suicida, porque a natureza sempre responde golpe com golpe, e já o faz com muita força e cada vez com mais fúria". A declaração impactante foi dada na apresentação, na semana passada, do relatório anual provisório da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

- Cada vez mais quente -

Desde 2015, os anos têm se sucedido como os mais quentes já registrados.

O de 2016 é o recordista, com uma temperatura média 1,2 °C superior à do período pré-industrial (o Acordo de Paris espera limitar aquecimento global a 2 °C e a 1,5 °C, se possível).

E 2020 se situa como um dos três anos mais quentes, apesar de ter sido um ano sob influência do "La Niña", fenômeno meteorológico que tende a esfriar as temperaturas globais.

A Europa viveu em 2019 uma onda de calor intensa. E o aquecimento é notado, inclusive, na Sibéria, onde a cidade de Verjoyansk registrou 38º C em 20 de junho passado.

No começo de fevereiro, cientistas brasileiros registraram 20,75 °C na Península Antártica (o recorde ainda não foi homologado).

- O gelo derrete, o nível do mar aumenta -

As regiões polares sofrem as consequências. Em outubro, a superfície da banquisa do Ártico atingiu seu menor nível já registrado nesta temporada. Sua taxa de crescimento também foi inferior à normal. E vários estudos científicos demonstraram que a camada de gelo da Groenlândia está derretendo em um ritmo sem precedentes, enquanto o gelo do "continente branco" ao redor do Polo Sul também se fragiliza.

Este degelo desencadeia um círculo vicioso: o gelo perde seu poder reflexivo, os raios do sol são mais absorvidos, a água do gelo derretido aquece a banquisa, que derrete ainda mais...

O fenômeno também contribui para a elevação dos mares, cujo nível subiu 15 centímetros no século XX, segundo especialistas climáticos da ONU, que advertem que em 2050 mais de um bilhão de pessoas que vivem em zonas costeiras pouco elevadas poderiam estar ameaçadas.

- As tempestades causam estragos -

Os efeitos do aquecimento dos mares provocam fenômenos meteorológicos extremos.

"Reduzindo a quantidade de gelo, o aquecimento aumenta e se o Ártico se aquece, pode mudar a circulação da corrente de jato (vento de altitude), que cria nossas condições meteorológicas", explica Nathan Kurtz, pesquisador do centro espacial Goddard, da Nasa, em um vídeo.

Os furacões e outros ciclones se alimentam do calor da água. Se a temperatura da água se eleva, as tempestades que se formam encontram "combustível". E embora seja complicado atribuir um episódio meteorológico único ao aquecimento, o aumento de sua intensidade é um sinal de sua influência, segundo pesquisadores.

As últimas cinco temporadas de tempestades no Atlântico registraram uma atividade superior à média. A temporada de 2020, que acaba de terminar, bateu todos os recordes, com 30 tempestades muito fortes (o recorde anterior, de 28, foi de 2005). A lista de nomes latinos para nomear as tempestades acabou e o Centro Nacional de Furacões americano (NHC) teve que adotar o alfabeto grego.

As outras regiões tampouco se salvam. Em março de 2019, dois ciclones devastaram a costa do oceano Índico, no sul da África, quase apagando do mapa a segunda cidade de Moçambique, Beira, deixando mais de 600 mortos e centenas de milhares de pessoas sem teto.

Em 2017, o sul da Ásia, especialmente Bangladesh, foi castigado por inundações gigantescas, causadas por uma temporada de monções.

- Seca e mega-incêndios -

No extremo oposto, os episódios de seca também se multiplicaram.

Durante o verão austral de 2017/18, os 3,7 milhões de habitantes da Cidade do Cabo, na África do Sul, viveram a ameaça de um "dia zero", sem água corrente. Sob os efeitos de uma seca que se prolongava desde 2015, as represas secaram. Uma situação três vezes mais provável de se repetir com o aquecimento global, segundo pesquisadores do World Weather Attribution (WWA).

Mas as consequências mais espetaculares são os "mega-incêndios", que devastaram várias regiões do mundo, da Austrália aos Estados Unidos, passando pela Sibéria. Sua ativação não está diretamente vinculada ao aquecimento global, mas este favorece as condições de sua propagação.

Na Austrália, a probabilidade de uma temporada de incêndios tão intensa quanto a última aumentou 30% desde 1900, devido ao aquecimento, segundo os modelos climáticos do WWA.

Na Sibéria, de um ano para outro, reapareceram os chamados "incêndios zumbi", quando o fogo penetra na terra, pois o solo não está mais suficientemente congelado nas camadas mais profundas. O derretimento deste "permafrost" também pode liberar imensas quantidades de gases de efeito estufa.

Os incêndios também queimaram a Amazônia. Neste caso, devem-se principalmente ao desmatamento para uso agrícola do solo. Reduzir a cobertura florestal, um enorme sumidouro de carbono, pode agravar ainda maias as mudanças climáticas, alertam os especialistas.

- Alimentos em risco -

A agricultura, sobretudo a intensiva, é uma emissora importante de gases de efeito estufa, mas a intensificação dos fenômenos climáticos extremos também ameaça a alimentação humana.

"A produção agrícola é extremamente sensível às condições climáticas", lembra o último relatório anual da FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. E "as mudanças climáticas também afetam os peixes e outras populações aquáticas", acrescenta.

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