Dois estudos publicados nesta quinta-feira (23) na revista Science revelaram poucas evidências de envelhecimento entre certas espécies de sangue frio, desafiando uma teoria da evolução de que a senescência, ou declínio físico gradual, é um destino inevitável.

Embora existam relatos individuais como o de Jonathan, a tartaruga de Seychelles que completa 190 anos este ano, estes foram considerados anedóticos, disse à AFP David Miller, pesquisador da Penn State University e autor de um dos artigos.

Para seu artigo, Miller e seus colegas coletaram dados de estudos de campo de longo prazo compreendendo 107 populações de 77 espécies, incluindo tartarugas, anfíbios, cobras, e crocodilos.

Eles usaram uma técnica chamada "marcar-recapturar", pela qual um certo número de indivíduos é primeiramente capturado e marcado, e depois os pesquisadores os acompanham ao longo dos anos para ver se os encontram novamente, derivando estimativas de mortalidade baseadas em probabilidade.

Os pesquisadores também coletaram dados sobre quantos anos os animais viveram após atingir a maturidade sexual e usaram métodos estatísticos para produzir taxas de envelhecimento.

"Encontramos exemplos de envelhecimento insignificante", explicou a bióloga e pesquisadora Beth Reinke, da Universidade Northeastern Illinois.

"Envelhecimento insignificante ou senescência não significa que eles são imortais", explicou. Significa que existe a possibilidade de morrer, mas que isso não aumenta com a idade.

O estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde, que estão interessados em aprender mais sobre o envelhecimento em ectotérmicos, ou espécies de sangue frio, para depois aplicar as descobertas nos humanos, de sangue quente.

Os ectotérmicos têm metabolismos mais baixos e envelhecem mais lentamente do que os endotérmicos, que geram internamente seu próprio calor e têm metabolismos mais altos.

-Não é o metabolismo -

No entanto, os autores deste novo estudo descobriram que o metabolismo não desempenha um papel tão central quanto se pensava anteriormente.

"Embora houvesse ectotérmicos que envelheceram mais lentamente e viveram mais que os endotérmicos, também houve ectotérmicos que envelheceram mais rápido e viveram menos", observaram.

O estudo também forneceu pistas para pesquisas futuras.

Ao olhar diretamente para as temperaturas médias de uma espécie, em vez da taxa metabólica, os cientistas descobriram que os répteis mais quentes envelhecem mais rápido, enquanto o oposto é verdadeiro para os anfíbios.

Animais com características físicas protetoras viveram mais e envelheceram mais lentamente em comparação com aqueles sem.

"Uma concha é importante para o envelhecimento, porque torna uma tartaruga muito difícil de comer, permitindo que vivam mais", analisou Miller.

Um segundo estudo realizado por uma equipe da Universidade do Sul da Dinamarca e outras instituições aplicou métodos semelhantes a 52 espécies de tartarugas em populações de zoológicos e descobriu que 75% apresentavam envelhecimento insignificante.

"Se algumas espécies de fato escaparem do envelhecimento, e estudos mecanicistas puderem revelar como elas o fazem, a saúde e a longevidade humanas podem se beneficiar", escreveram os cientistas Steven Austad e Caleb Finch em um comentário sobre esses estudos.

Eles observaram, no entanto, que mesmo que algumas espécies não tenham mortalidade crescente ao longo dos anos, elas exibem doenças relacionadas à idade.

A tartaruga Jonathan "está cega, perdeu o sentido do olfato e precisa ser alimentada manualmente", lembraram, provando que os estragos causados pelo tempo chegam para todos.

Os conteúdos mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Brasil e fique por dentro.

Siga-nos na sua rede favorita.