Dez anos depois, Naganuma e outros como ele fazem parte de uma geração cuja breve vida foi moldada pelo que se conhece no Japão como uma tragédia tripla: um poderoso terremoto que deu origem a um tsunami assustador e ao pior acidente nuclear desde Chernobyl.

As crianças do tsunami perderam familiares, casas, escolas e comunidades inteiras, e para algumas a experiência as levou a trabalhar na resposta a desastres ou a ajudar jovens como eles que viveram a tragédia.

Mesmo uma década depois, a devastação que Naganuma sofreu ainda está latente.

"Perdi minha família, minha comunidade. Coisas que me fizeram ser quem sou. Senti como se o tsunami tivesse arrancado metade do meu corpo", contou do lado de fora da Escola Fundamental Okawa, no nordeste do Japão, onde seu irmão de 8 anos morreu.

Ele estava entre as 74 crianças e dez funcionários mortos em uma das piores tragédias deste desastre que deixou cerca de 18.500 mortos ou desaparecidos, arrastados depois que o pessoal da escola não conseguiu levá-las para locais mais altos.

Naganuma tinha apenas 16 anos na época, mas culpa a si próprio pela perda.

Dois dias antes do terremoto de magnitude 9, ele sentiu um tremor de 7,3 em uma praia local, o que ele considerou mais tarde ter sido um aviso ignorado.

"Sinto que talvez meu irmão não precisasse morrer. Se tivesse avisado as pessoas na comunidade, talvez elas não tivessem que morrer", conta à AFP, enquanto observa as salas de aula destruídas.

Sua avó e bisavó também morreram no tsunami, enquanto esperavam pelo ônibus escolar que levaria seu irmão para casa.

"Vivo cheio de remorso", afirma. "Eu deixei as coisas acontecerem sem tomar nenhuma atitude".

- 'Vivendo entre desastres' -

Nos anos que se seguiram, Naganuma se concentrou em levar uma vida normal, mas ele enfrentou a culpa do sobrevivente, perguntando-se porque foi poupado.

Ele ingressou em um curso de pedagogia em uma universidade em outra região, mas acabou se transferindo para um centro de ensino perto de casa para estudar gestão de desastres.

Agora, ele oferece tours na escola e dá palestras sobre preparação para catástrofes.

No Japão e em outras partes do mundo, "todos nós estamos vivendo no tempo entre desastres", afirmou.

"Como vivemos esse tempo altera significativamente a probabilidade de sobrevivência quando enfrentarmos o próximo desastre", acrescentou.

Nayuta Ganbe, de 21 anos, também foi gradualmente voltando a si para relatar sua experiência com o tsunami.

Ele se abrigou em sua escola com suas mãe e irmã depois que o alerta de tsunami foi emitido após o terremoto.

Eles deveriam estar no terceiro andar, mas Ganbe foi recuperar os sapatos, que os estudantes japoneses deixam na entrada.

Enquanto ele segurava a porta para cinco homens que vinham na direção da escola, uma torrente de água misturada com sedimentos oleosos, destroços e veículos derrubaram os homens e os puxaram para baixo.

Ganbe estava do lado de dentro, em um local levemente mais elevado, mas a água "espessa como a maionese" rapidamente inundou o local ao seu redor.

"Foi como se a água tivesse agarrado meus tornozelos", lembra.

Um homem que era arrastado pelas águas gritou e esticou o braço na direção de Ganbe, que estava de pé, paralisado, enquanto a água subia.

"Quando as pontas de seus dedos ficaram completamente submersas, eu voltei a mim", relata.

O que se seguiu à catástrofe não foi menos traumático - Ganbe recorda ter encontrado um corpo dias depois e um membro enquanto ia para a escola, uma experiência nada incomum para crianças da região naquela época.

A cobertura midiática enfatizou a polidez dos evacuados e a solidariedade nacional, mas Ganbe viu adultos furarem fila para conseguir comida, empurrado crianças para o lado. Por vários dias após o tsunami, ele não comeu nada.

Os alunos foram desencorajados a falar de amigos "desaparecidos" e alguns sofreram ataques de pânico.

"Antes de que nos déssemos conta, se tornou normal não falar disso", lembra.

Mas três anos depois da tragédia, pediram-lhe que desse uma palestra e então começou a processar suas memórias, enfrentando noites de lembranças recorrentes e insones.

- 'Dilacerada' -

Ele agora estuda sociologia do desastre, pesquisando o que torna as pessoas mais propensas a dar os passos certos que as salva quando a crise acontece e dá palestras a grupos em todo o país, em parte para preservar as lembranças que ele teme que se apaguem.

"Mesmo nesta região, o assunto está se tornando algo que se vê nos livros didáticos", conta.

Ele acha que aqueles que eram adultos na época relutam com frequência a despertar lembranças dolorosas enquanto os mais jovens, como sua irmã, lembram apenas de sentimentos fragmentados de medo.

"Dê 20 anos e podemos ver jovens na faixa dos 20, nascidos após o desastre, que vão sair da cidade sem saber nada sobre isto", continua.

O tsunami não só marcou as crianças surpreendidas em seu caminho, mas também os afetados pelo desastre nuclear na usina Fukushima Daiichi.

Hazuki Shimizu morava em Namie, a alguns quilômetros dos reatores que derreteram depois que o tsunami sobrecarregou o sistema de resfriamento da usina.

Ela fugiu de casa com sua mãe e sua irmã em 12 de março e acabou chegando a Chiba, nos arredores de Tóquio.

"Literalmente, fiquei dilacerada", conta, lembrando ter assistido de longe pela TV o desenrolar da catástrofe. "Não pude fazer nada".

Ela estava a salvo, mas nem sempre protegida da dor.

Na prefeitura local, sua família foi mantida no estacionamento e monitorada com contadores Geiger quando foi registrá-la em uma nova escola.

Seus novos colegas de turma silenciavam sobre a tragédia.

"Simplesmente não sabia porque as pessoas não falaram sobre isso... Por que não se importavam? Eu me senti muito isolada", conta.

Já adulta, ela se mudou de volta para a região costeira e agora trabalha em um grupo que ajuda a preservar as lembranças do tsunami.

"Assim que me tornei vítima de um desastre, aprendi que isso é muito difícil", diz Shimizu, que também trabalhou com grupos que oferecem a crianças ensino particular e espaços comunitários.

"Há tantas pessoas que vivenciam tristeza e lutas", diz ela. "Precisamos ouvir suas vozes e ficar ao lado delas".

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