O principal oponente do Kremlin disse na quarta-feira que estava iniciando uma greve de fome para protestar contra suas condições de detenção e denunciar que está sendo "torturado por privação de sono".

A notícia é ainda mais preocupante para quem é próximo a ele, já que o ativista anticorrupção de 44 anos, que sofre de fortes dores nas costas e perda de sensibilidade nas duas pernas, afirma não ter acesso aos cuidados médicos necessários.

"Estamos muito preocupados com sua saúde, por isso pedimos acesso imediato a um médico", declarou à AFP Ruslan Shaveddinov, um de seus colaboradores.

"Navalny sempre levou muito a sério decisões como greve de fome", acrescentou.

Isso se soma a seus problemas nas costas - não diagnosticados -, e ocorre menos de um ano depois de sobreviver a um envenenamento que ele atribui ao Kremlin.

Depois de três semanas em coma, Navalny passou cinco meses se recuperando na Alemanha. E, ao retornar à Rússia em janeiro, foi preso e condenado a dois anos e meio de prisão em um caso de fraude que ele considera político.

"Depois de um envenenamento, ninguém sabe como o organismo pode reagir" se for privado de alimento, ressalta Shaveddinov, para quem isso "é muito preocupante".

- Kremlin mudo -

Os serviços penitenciários russos garantiram na quarta-feira que o opositor "recebe todos os cuidados médicos necessários" e que seu direito a oito horas de sono ininterrupto é respeitado, embora Navalny diga que é acordado oito vezes por noite.

O Kremlin se recusou a comentar seu caso.

A colônia onde está preso, em Pokrov, 100 quilômetros a leste de Moscou, é considerada uma das mais duras da Rússia.

O opositor a descreveu como um "campo de concentração".

Navalny também garante que foi ameaçado de transferência para uma cela disciplinar por violar o regulamento: por se levantar da cama 10 minutos antes da hora ou por se recusar a participar de atividades físicas obrigatórias.

"Este é mesmo um gulag, onde pessoas são torturadas e martirizadas, especialmente aquelas que são politicamente ativas", criticou o deputado Serguei Mitrokhin na rádio Echo Moscou.

Embora a forma da greve de fome de Alexei Navalny não seja conhecida, é uma medida usada por outros opositores russos.

Liubov Sobol, uma de suas aliadas, passou 32 dias bebendo apenas líquidos no verão de 2019, depois que sua candidatura às eleições locais foi rejeitada.

E o cineasta ucraniano Oleg Sentsov, que passou cinco anos em um campo de detenção russo, continua sendo o ativista mais conhecido por usar essa tática.

Ele fez greve de fome por 145 dias para exigir a libertação de "prisioneiros políticos" ucranianos na Rússia, alimentando-se apenas de suplementos nutricionais e injeções de glicose.

Quando ameaçaram alimentá-lo à força, medida drástica que segundo a lei pode ser praticada por via oral, retal ou por intubação, ele decidiu parar.

Esse tratamento, visto como uma forma de tortura por defensores dos direitos humanos, poderia ser aplicado a Navalny, se ele decidir ir até o fim.

O opositor "sabe que a greve de fome é uma medida extrema", tuitou um de seus aliados, o economista Sergei Guriev, mas se o faz, "é porque pensa que não tem nada a perder".

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