"Com a crise social que o país está vivendo, um protesto se faz necessário (...), não sei até aonde vai chegar", afirma o premiado diretor dentro e fora de seu país, e com um Goya por seu filme "Viver é Assobiar" (1999).

Fernández, de 76 anos, falou da forma como os cubanos defensores do governo rejeitam posturas críticas. São manifestações "de repúdio", muitas vezes violentas, contra quem eles consideram contrarrevolucionários, que se expressaram nos protestos recentes.

Aos gritos de "liberdade", "temos fome" e "abaixo a 'ditadura'", milhares de pessoas protestaram em mais de 40 cidades em 11 e 12 de julho. Os protestos deixaram um morto, dezenas de feridos e mais de 100 detidos.

O criador de filmes como Clandestinos e Madagascar se juntou, em 27 de novembro do ano passado, à inédita manifestação em frente ao Ministério da Cultura, para exigir liberdade de expressão. Agora, lamenta que o diálogo aberto nesse momento tenha sido rompido.

Naquele momento, "senti que algo estava realmente mudando na nossa realidade", diz ele, enfatizando que os 300 jovens artistas que protagonizaram essa manifestação "pedem o que eu chamo de uma nova linguagem".

Ao contrário de sua geração, que sempre atuou dentro "dos canais estabelecidos", esses jovens foram "além das instituições", afirma.

No entanto, um dia depois de se sentarem com as autoridades, foram "classificados" e "estigmatizados" na imprensa oficial.

"Tudo isso é resultado da falta dessa nova linguagem, dessa nova atitude de um país que precisa se abrir à participação desses jovens, porque eles não são o futuro, são o presente", destaca.

Sete meses depois da manifestação em frente ao ministério da Cultura, os protestos generalizados abalam o país devido ao acúmulo de fatores como "a pandemia, a nova ordem (reforma financeira), o bloqueio (dos Estados Unidos)", disse.

Durante uma pausa na gravação de seu próximo filme, Pérez falou também das contradições com as quais o cinema cubano acompanhou o processo revolucionário.

Os criadores defenderam a política de fazer cinema "não só de conscientização ou propaganda", mas para transformá-lo em "um marco cultural".

Nesse contexto, confessa que se empenhou em fazer seu próprio cinema buscando "primeiro ter uma expressão artística" que seja "determinada por expressar a complexidade da realidade".

Com a emoção um pouco contida, disse que nos últimos dias voltou a sentir que suas histórias acompanham os cubanos.

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