O ministro do Interior, Wado de Pedro, foi o primeiro a oferecer sua renúncia. Em seguida, foi seguido pelos titulares das pastas da Justiça, Martín Soria; da Ciência, Roberto Salvarezza; do Meio Ambiente, Juan Cabandié; e Cultura, Tristán Bauer, considerado próximo da vice-presidente Cristina Kirchner.

Fernández, reunido na sede do governo com seus funcionários mais próximos, ainda não anunciou sua decisão.

"Ouvindo suas palavras na noite de domingo, onde levantou a necessidade de interpretar o veredito expresso pelo povo argentino, considerei que a melhor forma de colaborar com esta tarefa é colocando minha demissão à sua disposição", escreveu De Pedro no carta que apresentou Fernández.

No domingo, nas primárias para eleger candidatos para as legislaturas de meio de mandato, a coalizão governista Frente de Todos (peronismo de centro-esquerda) obteve menos de 31% dos votos em todo o país, revelando uma rejeição do eleitorado muito maior do que imaginavam os líderes políticos e as pesquisas.

A coalizão de centro-direita Juntos, do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), obteve 40% dos votos em nível nacional e levou cinco pontos de vantagem sobre o partido no poder na província da capital Buenos Aires, tradicional reduto peronista.

Como o voto na Argentina é obrigatório, as primárias se tornam uma espécie de pesquisa em grande escala. Nesse caso, o resultado faz com que o governo tema perder a maioria no Senado e impossibilita sua consolidação na Câmara dos Deputados quando, em 14 de novembro, terão eleições para uma renovação parcial do Congresso.

- Pobreza e FMI -

Fernández, sem força política própria, assumiu o cargo em dezembro de 2019 com uma chapa promovida pela ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), agora vice-presidente.

Durante sua gestão, Fernández teve que enfrentar a pandemia de covid-19 e o aprofundamento da crise econômica que deixou quase metade da população na pobreza.

Com a popularidade em declínio, Kirchner tem criticado no último ano a gestão de Fernández, revelando divergências internas e até referindo-se a "funcionários que não trabalham".

A Argentina acumula até agosto um aumento da inflação de mais de 30%, entre as mais altas do mundo, e um índice de pobreza de 42%, em meio a uma recessão que dura desde 2018.

O governo também deve negociar com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um acordo de ampliação das facilidades para substituir o Stand-By assinado em 2018 durante o governo Macri e pelo qual deve 44 bilhões de dólares.

Nesta mesma quarta-feira, horas antes da crise em seu gabinete, Fernández fez alusão a essa negociação e disse que é preciso "levá-la adiante e consegui-la".

"Se tivéssemos que lidar com o pagamento de 19 bilhões de dólares (a partir de 2022) as condições seriam diferentes, não só as condições de investimento dos empresários, mas também as possibilidades do Estado de promover o desenvolvimento que queremos", afirmou Fernández, referindo-se ao projeto de orçamento para o próximo ano.

Até o momento, a negociação com o FMI, que divide a coalizão governista, foi adiada, inclusive para evitar que eventuais medidas de ajuste acordadas com o Fundo impactem as eleições parlamentares de meio de mandato.

Uma foto na companhia dos titulares das pastas de Economia, Martín Guzmán, e de Produção, Matías Kulfas, entre as mais questionadas por Kirchner, foi publicada sem comentários pelo presidente em sua conta no Twitter após receber as renúncias de seus outros ministros. Ao anoitecer, houve um telefonema de Kirchner para Guzmán, no qual a vice-presidente lhe disse que não se opõe à sua permanência no governo.

Enquanto isso, no Congresso, reuniram-se o presidente da Câmara dos Deputados, Sergio Massa, de confiança do presidente, e Máximo Kirchner, chefe da bancada de deputados da situação e filho da vice-presidente.

Fiéis a Fernández, os ministros de Segurança, Sabina Frederic, e do Trabalho, Claudio Moroni, expressaram no Twitter seu apoio "total e incondicional" ao presidente.

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