Doutor em filosofia política, Cassif, de 56 anos, é desde abril de 2019 deputado do Hadash, o partido comunista israelense, única formação judaica-árabe da Kneset, da qual uma das posições elegíveis está sempre reservada a um judeu.

Este antigo "refuznik" -- um dos primeiros a recusar realizar períodos de reserva do exército nos territórios palestinos ocupados -- já deu o que falar antes de sua eleição ao Parlamento, quando chamou o ex-ministro da Justiça Ayelet Shaked de "lixo neonazista" e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de "assassino em série".

- "Contra a supremacia" -

O atual deputado moderou um pouco sua linguagem, mas voltou aos ataques com sua recente discussão com a polícia durante uma manifestação contra as expulsões dos palestinos em favor de colonos judeus em um bairro de Jerusalém Oriental ocupada.

As imagens do deputado no chão, com os óculos quebrados e sua camiseta rasgada, enquanto era golpeado por um policial, circularam pelas redes sociais, provocando uma onda de indignação, inclusive entre a direita israelense.

"Israel se tornou fascista", declarou à AFP Cassif, que denunciou a "politização da polícia", exacerbada segundo ele pelos anos de poder de Netanyahu.

"Meu papel é lutar pela justiça e a democracia, o que significa 'não à ocupação, não ao fascismo, não ao nacionalismo étnico, não ao racismo'", enumerou.

Ele também ataca diretamente o sionismo, a contra-corrente do consenso político israelense.

Para este homem de rosto redondo e barba grisalha, o sionismo "incentiva a supremacia judaica".

"Sou contra todas as formas de supremacia, seja judaica, branca ou árabe", explicou à AFP.

Esses posicionamentos fazem de Cassif o único deputado judaico antissionista de esquerda. Um rótulo que ele assume.

- "Traidor" -

"A divisão e as hostilidades não são entre judeus e palestinos, são entre seres humanos e fascistas. Quando alguém como eu mostra a eles esta imagem de si próprios, é intolerável para eles", afirma.

Esses posicionamentos geram ameaças e insultos quase diários nas redes sociais: ele é acusado de ser um "traidor", um "anarquista esquerdista", "uma vergonha para o povo judeu" e é convidado a "ir embora para Gaza ou Ramallah".

"A imagem de Ofer Cassif na maioria da opinião israelense é a do ódio de si mesmo, do respeito do nacionalismo palestino, mas não do nacionalismo israelense, que ele poderia criticar ou tentar mudar, mas preferiu negá-lo totalmente", analisa Denis Charbit, professor de ciências políticas na Open University de Tel Aviv.

Ofer Cassif, filho único de uma família de esquerda de Rishon Letzion, uma cidade da periferia de Tel Aviv, estudou filosofia na universidade hebraica de Jerusalém e começou a militar no partido Comunista no final dos anos 1980.

Enquanto Israel viveu uma crise política durante dois anos, que dificultou o trabalho parlamentar, "o impacto da função de tribuna, de papel de personagem polêmico em que Ofer Cassif se estabeleceu ainda é difícil de avaliar", opina Denis Charbit.

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