"Confirmada a Copa América no Brasil. Venceu a coerência! O que sedia jogos da Libertadores, Sul-Americana, sem falar nos campeonatos estaduais e brasileiro, não poderia virar as costas para um campeonato tradicional como este", anunciou no Twitter o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos.

Pouco antes, Bolsonaro havia dito que "tudo indica que o Brasil será sede da Copa América", que será disputada sem público entre 13 de junho e 10 de julho.

Com o anúncio, o Brasil, onde mais de 465 mil pessoas já morreram por covid, terá que se desdobrar para organizar a competição continental, após a desistência dos países que seriam as sedes originais: a Argentina, imersa em uma forte crise sanitária, e a Colômbia, que sofre com tumultos sociais que já deixaram dezenas de mortos.

Na noite de segunda-feira, Ramos havia afirmado que a realização do torneio, inicialmente previsto para 2020, ainda não estava confirmada para ocorrer no Brasil, apesar do anúncio feito horas antes pela Conmebol, e que o governo tinha imposto condições à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para sediar a competição, como a não presença de público e que todos os membros das delegações estejam vacinados.

Nesta terça-feira, a Conmebol se pronunciou para agradecer a decisão do governo federal.

"Em nome do futebol sul-americano quero agradecer ao presidente Jair Bolsonaro pela eficiência na tomada de decisões", declarou o presidente da Conmebol, o paraguaio Alejandro Domínguez, no Twitter.

Na mensagem, Domínguez enfatizou que o torneio será realizado sem a presença de público e seguindo "protocolos sanitários rígidos".

- Em São Paulo, não -

Também pelo Twitter, o ministro Luiz Eduardo Ramos informou que os jogos serão disputados no Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás e no Distrito Federal, mas não detalhou quais estádios serão usados.

A Copa do Mundo de 2014 deixou o Brasil com diversos estádios de alto nível, pertencentes a clubes, governos ou municípios, mas a realização das partidas depende dos estados e vários deles anunciaram a intenção de proibir jogos em suas cidades.

O governador de São Paulo, João Doria, rival político do Bolsonaro, havia dito que não faria objeções à competição, mas recuou nesta terça-feira.

"Comuniquei ao secretário-geral da CBF que SP não deverá sediar a Copa América. Após ampla consulta aos membros do Centro de Contingência concluímos que representaria uma má sinalização do arrefecimento no controle da transmissão do coronavírus. A prioridade é conter a pandemia", escreveu Doria no Twitter.

José David Urbaez, membro da Sociedade Brasileira de Doenças Infecciosas, declarou à AFP que "não há como descrever a loucura de tentar organizar um evento dessa magnitude aqui".

Há algumas semanas, a média móvel de mortes no Brasil se estabilizou em menos de 2.000 por dia, número bem abaixo do pico de 4.000 mortes registradas em abril.

Mas os especialistas temem uma terceira onda, em meio à flexibilização das restrições, à oposição do Bolsonaro às quarentenas devido ao seu impacto econômico, à chegada de novas variantes e à uma lenta campanha de vacinação (menos de 11% dos 212 milhões de habitantes imunizados com as duas doses).

"As piores fases de 2020 são três a quatro vezes menores do que hoje. Hoje temos aquela falsa consciência, aquela falsa sensação [de que a situação] melhorou. A realidade é que estamos em uma fase péssima de transmissão muito elevada", explicou Urbaez.

- Pedido a Neymar -

A decisão de sediar a Copa América aumentou a pressão política sobre Bolsonaro, alvo de protestos sociais que no último sábado reuniram centenas de milhares de pessoas nas principais cidades do país.

Os manifestantes apontaram principalmente para a gestão caótica da pandemia por parte do presidente, que a chamou de "gripezinha", promove multidões e questiona a eficácia das vacinas.

À pressão política somam-se ameaças judiciais. O Partido dos Trabalhadores (PT), liderado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, favorito para as eleições presidenciais de 2022, segundo as pesquisas, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) na véspera a suspensão das negociações para a realização do torneio no Brasil.

E o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI que apura possíveis "omissões" de Bolsonaro na pandemia, convocou nesta terça-feira os jogadores e a comissão técnica da Seleção a se oporem à Copa América no Brasil, que ele chama de "campeonato da morte".

"Neymar, eu queria dirigir uma palavra a você. Não concorde com a realização dessa Copa América no Brasil. Não concorde. Não é esse o campeonato que precisamos disputar. Precisamos disputar o campeonato da vacinação. É esse o campeonato que precisamos disputar, ganhar. E você precisa marcar gols para que esse placar seja alterado", pediu o senador.

Na concentração do Brasil, que se prepara na Granja Comary, em Teresópolis, para o jogo válido pelas eliminatórias para a Copa do Mundo contra o Equador, que será disputado nesta sexta-feira em Porto Alegre, o silêncio reina por enquanto.

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