Em Ica, cerca de 2.000 caminhões e dezenas de ônibus de passageiros estão parados.

Após cinco dias de filas nas estradas e a morte de um trabalhador por um tiro enquanto a polícia tentava abrir caminho em uma rota, a Igreja Católica se ofereceu para mediar os conflitos nesta sexta-feira e encontrar uma "solução pacífica".

Os bloqueios começaram na segunda-feira na rodovia Pan-americana, a mais importante do país. Nesta sexta, metalúrgicos fecharam a Rodovia Central, que vai de leste a oeste entre o planalto peruano e Lima.

"O que estamos passando é horrível, porque não conseguimos dormir com medo de sermos agredidos. Sobrevivemos de frutas que foram atiradas dos carros", afirma Edgar Ancajima, de 36 anos, auxiliar em um caminhão com gás liquefeito parado há quatro dias na Pan-americana, na região de Ica, 250 km ao sul de Lima.

Um trabalhador rural de 19 anos foi morto a tiros na quinta-feira em Virú (La Libertad), 490 quilômetros ao norte de Lima, enquanto a polícia tentava abrir caminho em um trecho da Pan-americana, que cruza de norte a sul do país a partir da fronteira com o Equador até a chilena.

Os trabalhadores rurais de Ica exigem a revogação de uma lei que os priva de direitos e limita seus salários.

- "A carga está apodrecendo" -

De Lima ao sul, os bloqueios começam no quilômetro 218 da Pan-americana, na altura do rio Pisco, observaram jornalistas da AFP. Caminhoneiros improvisaram panelas. Alguns matavam o tempo jogando cartas ou futebol.

"A situação é grave para nós. A carga está apodrecendo", relatou à AFP o caminhoneiro Loli Ortiz Zambrano, um venezuelano, de 62 anos, que transporta 32 toneladas de batatas.

Na travessia do rio Pisco, cerca de 40 grevistas, incluindo várias mulheres, comeram mingau de aveia com leite e pão enquanto mantinham o bloqueio, sob o olhar de quatro policiais.

"Reclamamos dos abusos e dos salários miseráveis que eles nos dão de 39 soles [11 dólares] por dia", disse Abraham Quispe, um sindicalista de 35 anos, à AFP.

"Vamos continuar com a luta em nossos bloqueios", alertou o trabalhador Isaías Llano, também de 35 anos.

- Polêmica lei Fujimori -

A Igreja se ofereceu nesta sexta-feira para encontrar "uma solução pacífica e harmoniosa" para o conflito e instou o Congresso a aprovar uma reforma legal que conceda aos trabalhadores agrícolas "condições e salários decentes".

O cardeal Pedro Barreto e o bispo de Ica, Héctor Vera, participarão da mediação, disse a Conferência Espiscopal.

Os trabalhadores rurais exigem melhores salários e a revogação da Lei de Promoção Agrária, uma das últimas promulgadas pelo presidente Alberto Fujimori (1900-2000).

Essa lei concede benefícios fiscais às empresas e sua vigência foi prorrogada há um ano até 2031. Sua possível revogação pelo Congresso disparou o alarme dos agroexportadores, que faturam cinco bilhões de dólares anuais.

Pela lei, o salário diário dos trabalhadores agrícolas é de 11 dólares, mas não especifica uma jornada máxima de trabalho, apenas um mínimo de quatro horas. Os trabalhadores estão exigindo 18 dólares por dia e outros benefícios.

- Complexo Metalúrgico -

Os bloqueios na Rodovia Central foram organizados por trabalhadores de uma fundição de minerais em La Oroya, uma cidade mineira localizada 175 km a leste de Lima e 3.750 metros acima do nível do mar.

O Complexo Metalúrgico Doe Run Peru está em processo de liquidação, o que deixaria cerca de 2.500 desempregados em La Oroya, segundo a mídia local.

Os trabalhadores querem que o governo entregue a empresa a eles para retomar a produção e salvar seus empregos.

Sagasti, que assumiu o poder há 17 dias em meio a uma crise marcada por três presidentes tomando posse em uma semana, pediu o levantamento dos bloqueios.

"Protestar contra a reivindicação de direitos é legítimo", escreveu ele no Twitter na noite de quinta-feira.

Mas "bloquear estradas não é apenas inconstitucional e ilegítimo porque afeta vários direitos dos cidadãos, é também um crime que o Estado não pode aceitar", acrescentou.

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