Todos os anos, papagaios-do-mar, mergulhões e araus abandonam seus ninhos na zona do Ártico para se deslocarem mais para o sul, para a costa de Terranova, Islândia, ou Noruega.

As condições são mais amenas, com temperaturas mais elevadas e mais comida. Essas áreas estão, porém, na trajetória de ciclones de forte intensidade, que podem durar dias.

"Suspeitávamos de que essas tempestades matam os pássaros. Mas era um mistério saber onde e como", disse à AFP David Grémillet, do Centro Francês de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), que coordenou o estudo publicado na terça-feira (14) no periódico Current Biology.

Para esta pesquisa, uma importante equipe internacional decidiu seguir o rastro de cinco espécies, oriundas de 39 colônias, representantes da comunidade de aves do Atlântico Norte: papagaios-do-mar, araus e tordo-mergulhadores.

Os cientistas equiparam mais de 1.500 exemplares dessas espécies com sensores eletrônicos de localização global GLS ("global location sensor"), colocados em suas patas, em diferentes locais de nidificação durante o verão, antes de sua migração no inverno.

Esses dispositivos são mais leves e menos precisos do que a navegação GPS, mas são suficientes para dar a latitude e a longitude da ave durante seu voo.

Os cientistas conseguem recuperar a maioria deles no verão seguinte, quando os pássaros voltam para casa.

Durante uma década, esses aparelhos permitiram estudar a trajetória das aves. Também foi possível combinar os dados desses percursos com as grandes depressões atmosféricas dos invernos no hemisfério norte.

Um modelo matemático criado especificamente para medir o gasto de energia em meio às condições meteorológicas descobriu algo inesperado, porém: os pássaros não consomem mais força quando os ciclones chegam. Não morrem de frio, nem de cansaço.

"A hipótese é que as condições meteorológicas são tão espantosas que não conseguem se alimentar", afirma David Grémillet.

"É preciso imaginar ventos de até 120 km/h, ondas de oito metros, turbulências na coluna d'água que perturbam o plâncton e os cardumes de peixes, dos quais se alimentam ... As aves se veem presas em uma gigantesca máquina de lavar", descreve o oceanógrafo.

Como não conseguem escapar, precisam resistir à tempestade como for possível. Sem poder mergulhar no mar para pescar. Estas aves têm muito pouca reserva de gordura e podem morrer em poucos dias, sem comida.

O que explica a magreza de seus corpos quando chegam às praias.

"É importante entender os perigos que ameaçam as aves marinhas", estima a pesquisadora Manon Clairbaux.

Entre outros motivos, porque sua população mundial diminuiu pela metade desde os anos 1970.

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