Do outro lado da videochamada, familiares desta mulher, Gloria García, expressam sua alegria ao ver o médico que ajudou a salvar sua vida.

Varon, que chefia uma equipe do pequeno hospital United Memorial, localizado em um bairro humilde de North Houston, Texas, virou manchete na semana passada quando uma foto dele abraçando um paciente idoso com a doença viralizou no Dia de Ação de Graças.

Na foto, um homem magro e de cabelos brancos aparece com a cabeça recostada no do médico, que por sua vez está quase irreconhecível sob seus trajes de proteção, embora curvado em um gesto de conforto.

Um momento de clara empatia que se tornou um símbolo da pandemia que assola o país, que há várias semanas enfrenta uma potencial crescente de casos da pandemia.

Na sexta-feira, ao cumprimentar a família da senhora García, o médico também tenta tranquilizá-la.

Mas só porque ele tem gestos de compaixão não significa que não esteja exausto.

A AFP o acompanhou em seu 263º dia consecutivo de trabalho. "Atualmente, mantenho a conta dos dias (em que trabalho) melhor do que a minha conta bancária", conta o médico, que ganhou 15 quilos.

"Como o que me trazem, porque não se sabe quando vai poder comer de novo", explica ele, apontando para uma caixa de rosquinhas doces.

Até mesmo as poucas horas que ele passa em casa são diariamente interrompidas por intermináveis ligações. Ele só dorme, relata, uma a duas horas por noite. "Não me pergunte como eu faço isso".

Ele não é o único. Em julho, ele mesmo alertou a mídia sobre as dificuldades de suas equipes.

A equipe "está muito cansada. As enfermeiras começaram a chorar no meio do dia. Elas vão desabar porque estão sobrecarregadas com o número de casos", comentou à AFP. "Estão exaustos", insistiu.

- Reforços -

Na unidade de terapia intensiva, os leitos estão todos ocupados.

Sentada na ponta do dela, Gloria García arruma o penteado e a maquiagem antes da videochamada. Mas muitos estão deitados em almofadas. Nas paredes, encontram-se pôsteres e cartões desejando aos pacientes uma "boa recuperação".

Os rostos da equipe médica mal são visíveis por trás de seus óculos e máscaras. Alguns, incluindo o doutor Varon, têm suas fotos penduradas no pescoço.

Durante o verão, chegaram reforços militares junto com uma equipe médica, mas não permaneceram.

O hospital ainda conta com a ajuda de enfermeiras que vêm de outras partes do país desde o início da pandemia, para ajudar no que for necessário.

Demetra Ranson deixou a Flórida para viajar primeiro para Nova York, o epicentro da pandemia na primavera, e depois para outros pontos quentes antes de chegar a Houston.

Para confortar os pacientes, muitas vezes os toca nos braços ou ombros e até fala com quem não consegue responder, explica.

Ela diz a eles onde eles estão, caso possam ouvi-la.

- "Caçadores de covid" -

As coisas não deveriam ter chegado a esse ponto, acredita o Dr. Varon, que sempre expressou "frustração" com a falta de respeito dos texanos pelas medidas de restrição.

"As pessoas fazem tudo que é errado, vão a bares, restaurantes", lamentou em declarações à CNN. "As pessoas não me ouvem e acabam na minha unidade de reanimação. Elas precisam saber que não quero ter que abraçá-las".

Em novembro, esse estado se tornou o primeiro do país a ultrapassar um milhão de casos do novo coronavírus.

O governador republicano do Texas, Greg Abbott, ordenou o confinamento durante um mês, em abril, mas não o estendeu após esse prazo. O uso de máscara só se tornou obrigatório em julho.

Para Joseph Varon, as próximas seis a doze semanas, junto com os feriados de Natal e Ano Novo, serão "as semanas mais sombrias da história moderna da medicina nos Estados Unidos", prognosticou em entrevista à ABC.

Um novo necrotério foi instalado para reforçar a capacidade do hospital.

A equipe se prepara para isso tanto quanto possível. Durante os raros momentos de calma, numa sala que conta com uma faixa onde se lê "caçadores de covid", procuram recuperar o fôlego.

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