Guaidó, que se declarou presidente encarregado da Venezuela na unicameral Assembleia Nacional, não reconheceu o processo e nesta segunda-feira (7) iniciou um plebiscito para estender sua legislatura.

Esta consulta pode mudar alguma coisa na vitória do chavismo? O que se espera de 2021?

- Abstenção, a grande protagonista -

Com uma participação de 31%, segundo o primeiro boletim, estas eleições parlamentares têm um dos percentuais de abstenção mais elevados da era democrática venezuelana, iniciada em 1958.

A ausência de dois terços da população eleitoral contrasta com a participação de 71%, registrada nas legislativas passadas, quando a oposição quebrou 15 anos de hegemonia chavista em 2015.

Na ocasião, a oposição majoritária pediu o boicote do processo, tachado de "fraude" depois que a justiça nomeou novos reitores eleitorais, uma atribuição do Parlamento, e também entregou as direções dos principais partidos a adversários de Guaidó.

"Não tinham como não se abster, nem tinham partidos políticos", explicou à AFP Benigno Alarcón, diretor do Centro de Estudos Políticos e de Governo da Universidade Católica Andrés Bello.

No entanto, o presidente da empresa Datanálisis, Luis Vicente León, não atribui a abstenção ao boicote opositor, mas a uma "desconfiança nacional com o setor político", tuitou.

Para o analista político Rafael Álvarez, trata-se de uma "reedição" das presidenciais de maio de 2018, quando Maduro foi reeleito, com 67,7% dos votos, em meio a uma abstenção de 52%.

Então, os grandes partidos da oposição se abstiveram alegando falta de garantias e posteriormente as denunciaram como fraudulentas junto à comunidade internacional, que apoiou o movimento de Guaidó de se proclamar presidente encarregado para pôr fim à "usurpação" do presidente socialista.

- Maduro controla tudo -

Maduro "precisava tirar a pedra do sapato", conquistando o Legislativo opositor, disse Álvarez.

O governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e seus aliados concentraram 67,6% dos 5.264.104 votos apurados segundo um primeiro boletim da autoridade eleitoral, que ainda não deu um balanço da distribuição dos assentos.

Com a maioria do Parlamento, Maduro agora controla toda a institucionalidade da Venezuela, com poderes públicos de orientação governista para favorecer suas medidas.

Não é que não tivesse todo o poder quando o Parlamento estava nas mãos da oposição. Maduro, que ostenta o controle territorial, com o apoio da Força Armada, neutralizou esta Assembleia através da Corte Suprema, que o declarou em desacato desde os primeiros dias de sua Legislatura.

E convocou uma Assembleia Constituinte com poderes absolutos, que na prática assumiu as funções legislativas.

Mas, o Parlamento a seu serviço, destacou Alarcón, permitirá agora a Maduro cumprir com "formalidades frente a países 'amigos'" que queiram fazer negócios na Venezuela e precisem de "aprovação legislativa", como China, Rússia, Turquia, Irã e Cuba.

De qualquer forma, "há países que nunca vão apoiar" Maduro, acrescentou. Os Estados Unidos, a União Europeia, Brasil, Canadá, Colômbia, Reino Unido, Costa Rica e Panamá já informaram que não reconhecem estas eleições.

- Guaidó busca revanche -

Sem controle do Parlamento a partir de 5 de janeiro, Guaidó enfrenta o desafio de redesenhar a rota do governo de transição, que busca liderar até que seja possível realizar eleições "livres".

"O que [Guaidó] tem é a rua, tem que trabalhá-la para não perdê-la", afirmou Alarcón, embora o dirigente da oposição tenha perdido a capacidade de convocar manifestações ante a impossibilidade de cumprir sua promessa de depor Maduro.

Ele tentou sem sucesso retirá-lo do poder, impulsionando sanções econômicas e convocando atividades nas ruas que foram perdendo força com o passar dos meses, ao ritmo de sua popularidade.

Agora, o opositor aposta em uma "consulta popular" não vinculante, que começa nesta segunda-feira e termina no sábado, com a qual tenta ampliar sua margem de ação.

Isto, acrescenta Álvarez, em um momento em que "carece de efervescência", sem objetivos conquistados nem uma rota clara.

"A oposição está obrigada a se repensar e se reorganizar", concordou Alarcón.

Com a vitória, Maduro dirige-se a fazer "desaparecer" a oposição "tradicional" e "substituí-la" por outra com partidos minoritários, "que não vão fazer oposição contra ele", destacou Alarcón.

Uma parte da oposição dissidente de Guaidó obteve 17,95% dos votos nas Legislativas.

Enquanto isso, por outro lado, disse Álvarez, Maduro investirá contra seus adversários, forçando "um grande número de ex-deputados ao exílio".

Guaidó insistiu em que não deixará o país.

"Assumo o risco de ficar na Venezuela", disse na semana passada durante entrevista com a AFP.

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