O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e seu colega francês, Emmanuel Macron, exemplificam essa divisão. O primeiro afirmou em 26 de março que o líder russo, Vladimir Putin, "não pode continuar no poder", enquanto para o segundo, a paz não virá com a "humilhação" da Rússia.

Para além da retórica, Estados Unidos e Reino Unido estão fornecendo armas à Ucrânia com muito mais intensidade que França e Alemanha. Relatos recorrentes na imprensa, mas nunca confirmados, afirmam que os serviços de inteligência americanos ajudam Kiev ativamente.

Washington e Londres são mais favoráveis que Paris e Berlim às sanções contra Moscou e parece que já não acreditam em uma solução diplomática do conflito, como esperam os europeus.

"O mundo anglófono está salvando a Ucrânia, enquanto a União Europeia (UE) está salvando a si mesma", resume o pesquisador irlandês Eoin Drea, do centro de reflexão Martens Centre, em Bruxelas, em coluna no site americano Politico.

Washington destina dezenas de bilhões de dólares em armas para a Ucrânia. "O apoio americano à Ucrânia está mudando de patamar. Quando se gasta tanto dinheiro, é para que o investimento tenha retorno", estima Gérard Araud, ex-embaixador da França nos Estados Unidos e na ONU.

- 'Golpe de sorte' -

Embora o governo americano tenha afirmado não querer uma "mudança de regime" após as declarações de Biden, Washington quer uma Rússia "enfraquecida" de forma duradoura, como assinalou o secretário de Defesa, Lloyd Austin.

Para os EUA, cuja prioridade estratégica continua sendo o contraponto à China, "trata-se de um golpe de sorte, estão debilitando a potência russa sem um único soldado americano!", opina Araud à AFP.

"Com os ucranianos lutando tão bem e os russos tão mal, os Estados Unidos estão convencidos que é a hora de enfraquecê-los", afirma. Por sua vez, "os britânicos são o peixe-piloto dos americanos. Desde o Brexit, eles não têm outra política possível".

Já do lado europeu, "há fissuras", reconhece o ex-diplomata italiano Marco Carnelos, entre países do Leste, hostis à Rússia por razões históricas, e do Oeste, que apoiam a Ucrânia, mas são mais moderados e estão mais expostos às consequências da guerra que Washington.

Para a Europa Ocidental, além do perigo de uma escalada militar, "o preço econômico para alcançar o objetivo de Washington poderia ser astronômico", afirma Carnelos à AFP.

"Do ponto de vista econômico, há uma verdadeira assimetria" entre a exposição dos países anglo-saxões e a dos europeus, com a Alemanha na cabeça, explica à AFP Sébastien Jean, professor de Economia Industrial no Conservatório Nacional de Artes e Ofícios francês.

Para o especialista, os EUA e o Reino Unido, em menor medida, têm uma dependência mais limitada que a Europa Ocidental das importações de energia e matérias-primas da Rússia.

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